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Protagonismo feminino e as conexões que movem o agro

Elas estão no campo, na cidade, em qualquer lugar. Cada vez mais fortes, as mulheres do agro mostram com tem transformado suas vidas com conexões.

Foto: Olha Goias - IA

Elas estão no campo todos os dias. Plantam, colhem, administram, vendem, organizam e decidem. Conectam a produção que nasce na terra com a cidade que consome e também umas às outras, em redes de trabalho, apoio e permanência, muitas vezes silenciosas.

O último Censo Agropecuário do IBGE, de 2017, mostra que a presença feminina no campo cresce, seja na gestão das propriedades, na diversificação da produção ou na participação direta nas decisões produtivas. São cerca de 950 mil mulheres que administram propriedades rurais no Brasil, o que representa aproximadamente 19% dos estabelecimentos agropecuários do país. Elas atuam diretamente na gestão da terra, da produção e das decisões do dia a dia, conectando o que é plantado e criado nas propriedades com os mercados, as cidades e as relações que sustentam o agro brasileiro.

É nesse cenário que iniciativas de organização e fortalecimento ganham importância. A Comigo, cooperativa criada em Rio Verde há mais de 50 anos, é um exemplo dessa força coletiva. Dentro da cooperativa, a presença feminina se traduz em participação ativa, formação e liderança, conectando mulheres que produzem, empreendem e constroem o agro a partir do cotidiano. É dessas conexões que histórias ganham rosto, nome e território.

A produção de mel em meio aos grãos

Andrezza é uma jovem cooperada produtora rural. A propriedade da família, com cerca de 400 hectares, fica na região de Edealina e garante o sustento de todos. Além da plantação de soja e milho, carro-chefe da fazenda, ela decidiu empreender na produção e comercialização de mel. Hoje, é uma das poucas apicultoras da região.

A produção nasce no silêncio do campo, entre lavouras e o cuidado diário com as abelhas, mas ganha novos caminhos fora da porteira. O mel segue para mesas, buffets e cozinhas urbanas. Formada em Biomedicina, Andrezza trabalhava em Goiânia, mas durante a pandemia deixou a cidade para se dedicar ao campo e estar mais perto dos pais.

“É um privilégio poder aproveitar mais eles aqui”, conta. “Eu ajudava em tudo na fazenda, principalmente na parte administrativa e de compras. Mesmo fazendo muita coisa, ainda tinha um tempo livre, e foi aí que decidi investir em outra área. A apicultura surgiu como uma forma de aproveitar ainda mais a propriedade.”

Após o primeiro curso, em 2023, nem mesmo a família levou a nova atividade muito a sério. “‘Você mexer com abelhas?’ brincavam”, relembra. Um ano depois, surgiu outro curso, desta vez ao lado da fazenda. “Lá fui eu de novo. Saí de lá já com as primeiras caixas compradas.”

Com o apoio dos pais, o apiário foi implantado e a primeira colheita veio em 2025. Com 10 caixas, Andrezza coletou 212 quilos de mel. “O pessoal do Senar disse que foi uma ótima produção para o primeiro ano”, destaca. “Já no primeiro ano consegui pagar todos os equipamentos com a renda do mel. Hoje tenho 10 caixas povoadas, mas a ideia é dobrar essa quantidade.”

Com a boa demanda, Andrezza passou a adquirir mel de outros apicultores da região, ampliando a renda na comunidade. A apicultura não ficou restrita ao mel puro. Ela diversificou a produção, comercializando mel com castanhas e mel composto com fava, voltado para buffets e eventos. Toda a comercialização é feita pela internet.

Em 2025, Andrezza participou do curso de formação de mulheres cooperativistas. Para ela, foi mais um momento de virada de chave. “Você sai da caixinha. É um trabalho de conexão, de união mesmo”, afirma. “Depois que você faz o curso, começa a enxergar outras possibilidades. Com o tempo, esse retorno vem.”


A feira nossa de todo dia

Nossa jornada segue dando luz a mulheres que conectam propósito e produção contínua. Desta vez, desembarcamos às margens da BR-060, na região de Jataí. É ali que vive a família de Maria Inês, em um assentamento onde, além da produção de grãos, o plantio de milho verde movimenta a rotina.

Todo domingo, a família está na feira tradicional da cidade com a barraquinha. Já são mais de dez anos plantando milho verde e, em Jataí, são conhecidos por entregar milho fresco e doce. Para garantir o produto o ano todo, toda terça-feira tem plantio. “A gente tem que ter uma renda extra, né? Porque se não, não dá”, conta Maria Inês de Melo. “Tudo que produzimos aqui a gente leva: jiló, quiabo, maxixe, pepino, batata-doce.”

A família inteira está envolvida. Uma das filhas fica no caixa, participa da rotina e aprende desde cedo o valor do trabalho no campo. “Quero comprar um daqueles carrinhos pra vender o milho já cozido também”, planeja.

A propriedade tem cerca de 30 hectares e uma história marcada por tentativas e persistência. “Já plantamos uva, não deu certo. Depois pitaya”, relembra. O apoio técnico fez diferença. “Temos a assistência do Senar e o apoio da Comigo. O agrônomo da Comigo vem na roça, ajuda a regular a máquina e orienta sobre dosagem de adubo.”

Os insumos adquiridos na cooperativa contribuíram para o crescimento da produção. “Crescemos uns 80% nesses dez anos. Cada ano que passa é uma experiência”, resume.

Entre a roça e a cidade, entre o plantio de terça-feira e a feira de domingo, o alimento produzido no campo chega fresco à mesa urbana, junto com o trabalho de mulheres que sustentam e conectam histórias reais.

 

Formação de Mulheres no apoio ao protagonismo concreto

Ao ouvir essas mulheres do campo, fica claro que não se trata de ocupação simbólica, mas de protagonismo concreto, aquele que transforma cadeias produtivas e amplia o impacto social do agronegócio goiano. A presença feminina na Comigo se revela também em números. Hoje, são 2.398 mulheres cooperadas. Em Rio Verde, 434 fazem parte do quadro social, dentro de um universo de 12.649 cooperados. Fora das estatísticas, há ainda esposas e filhas que participam do dia a dia da cooperativa, mesmo sem matrícula, mulheres que produzem, decidem e sustentam o agro a partir de dentro das propriedades.

Foi olhando para essa presença crescente que nasceu o curso de Formação das Mulheres Cooperativistas da Comigo. Criado em 2015, o programa chega em 2026 à sua 10ª edição, fortalecendo a liderança feminina, a participação no quadro social e o papel da mulher como agente de desenvolvimento no agronegócio. Jovens, filhas ou esposas de cooperados podem participar. São seis módulos que abordam temas como sucessão familiar, cooperativismo, gestão e liderança. Mais de 400 mulheres já passaram pela formação.

“Elas passam a ter mais visibilidade, força e liderança”, explica a analista de Desenvolvimento de Cooperados, Siomara Martins de Oliveira, responsável pelo programa. “Antes elas chegavam à cooperativa e nem desciam dos carros. Depois da formação, elas descem, se envolvem em tudo na propriedade, principalmente na parte de gestão”, destaca. “Logo no início fazemos uma dinâmica em que elas formam pequenos grupos, chamadas de ‘as irmãs’, e assim caminham até o fim da formação. Elas ficam muito unidas, se conectam mesmo.”

Segundo Siomara, o programa também deu origem à Comissão das Mulheres Cooperativistas da Comigo. É nesse espaço que elas passam a atuar em ações sociais, na divulgação da cooperativa e na formação de novas turmas. Algumas avançam ainda mais, sendo convidadas a integrar o Conselho de Administração e o Conselho Fiscal.

 

Não é apartar, é incluir, conectar

Assim como a Comigo, outra instituição que atua no fortalecimento do protagonismo feminino no agro é a UPL, empresa que comercializa insumos agrícolas. Desde 2024, a empresa estruturou políticas internas de responsabilidade social dentro dos pilares ESG, com foco na valorização da mulher. Inicialmente, o trabalho foi voltado ao time interno. Hoje, cerca de 25% do quadro é formado por mulheres, com meta de alcançar 30% até 2026, sendo que 25,19% já ocupam cargos de liderança.

De acordo com Fernanda Blasque, gerente de comunicação da empresa, a palavra de ordem é equidade. “A gente cria condições iguais. Por exemplo, a mulher RTV, quando tem filho com idade abaixo de dois anos, não viaja. Também a transparência salarial. Acima de tudo, isso é para criar um agro melhor, em todas as suas vertentes”, explica.

O Grupo Vozes Equidade de Gêneros, formado por 25 colaboradores, lidera iniciativas voltadas à justiça e à imparcialidade na distribuição de benefícios e responsabilidades no ambiente corporativo.

Em um segundo movimento, a UPL ampliou o olhar para fora da empresa, indo ao encontro das mulheres que estão no campo, produtoras, cooperadas e distribuidoras. A proposta é capacitar, dar visibilidade e fortalecer a atuação dessas mulheres. Em 2024, esse trabalho ganhou força com dois eventos do programa UPelas. “Treinamos mulheres para falar, para ter visibilidade. Temos uma vertente muito forte em capacitação. O que a gente tem feito é não apartar, porque entendemos que a mulher não precisa estar à parte. Estamos trabalhando mais em incluir, para que essa mulher seja relevante. É uma caminhada que temos feito”, afirma Blasque. A coordenadora reforça que não se trata de cumprir cotas, mas de garantir representatividade, pela contribuição que a mulher entrega ao agronegócio.

Esse olhar externo se conecta ao programa Cooper UP, criado em 2018 para fortalecer o relacionamento com cooperativas e disseminar inovação. Atualmente, o programa reúne 44 cooperativas participantes, entre elas a Comigo, já impactou mais de 750 pessoas.  Ao integrar ações internas e iniciativas externas, a empresa atua como elo entre quem trabalha no escritório e quem produz dentro da porteira, conectando o campo à cidade e fortalecendo mulheres que fazem o agro avançar pela contribuição real que entregam todos os dias, não por cota, mas por representatividade.